ARTETERAPIA (2005)

 

Artigo publicado na revista Atelier Guia de Artes Plásticas, n. 97 (out 2005).

 

• Arteterapia

• Nise da Silveira

• Terapia expressiva

• Jung

• Psicologia junguiana

 

ARTETERAPIA

 

Arteterapia é um saber e uma prática baseados nas artes para a realização de um processo terapêutico. Os diversos materiais e técnicas artísticas, como o desenho, a pintura, a modelagem, a colagem, etc., são colocados à disposição da livre criatividade, ou seja, da expressão espontânea do sujeito, compreendido na sua totalidade física, mental, espiritual e emocional. Os objetivos da arteterapia são muito diferentes daqueles que regem o sistema das artes em geral. Os arteterapeutas acreditam que a criatividade é inerente à condição humana e não um privilégio específico de sensibilidades talentosas. Seu objetivo não é produzir obras de arte (ainda que isso possa acontecer eventualmente, haja vista a obra de Arthur Bispo do Rosário, Emygdio, Fernando Diniz, entre outros), mas promover a vivência expressiva através das criações plásticas. Viver o processo é mais importante do que alcançar resultados e, naturalmente, não supõe nenhum tipo de habilidade especial no manejo de materiais e técnicas.

 

No Brasil, o reconhecimento do valor das terapias expressivas como método de tratamento teve como marco o trabalho desenvolvido pela Dra. Nise da Silveira junto aos pacientes do Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro. Provavelmente antecipando-se às possíveis confusões conceituais e estéticas que a noção de terapia pela arte poderia gerar, ela preferiu traduzir através da singela expressão “emoção de lidar” a força moral e intelectual que demonstrou ao iniciar um processo de revolução nas formas de tratamento adotadas nas instituições psiquiátricas. Por se constituir numa linguagem fundamentalmente não-verbal, ou pré-verbal, as imagens, símbolos, cores e formas apresentam-se como um canal de comunicação por onde fluem conteúdos que emergem do inconsciente. Esses conteúdos são, na maior parte das vezes, difíceis de serem expressos verbalmente, por não passarem pelo filtro da censura da mente lógica, racional. Na medida em que propiciam o contato do indivíduo com realidades interiores até então desconhecidas (ou apenas parcialmente conhecidas), atuam como catalisadores daquilo que é o objetivo principal do trabalho terapêutico: a transformação do sujeito, a partir da reconstrução de sua história pessoal, da expansão da sua esfera de consciência e da reintegração das partes dissociadas da sua personalidade.

 

Essa é a meta do processo de individuação a que se refere Jung, que também o compara à jornada do herói que escuta o chamado e parte para enfrentar o dragão. Dentre os fundadores da psicanálise, Jung foi quem mais profundamente mergulhou nos mistérios da alma humana, dedicando-se à decifração da linguagem do inconsciente, penetrando em camadas tão arcaicas da psique que seus conteúdos pareciam ultrapassar a existência histórica do sujeito e revelavam semelhanças surpreendentes com imagens mitológicas, figuras lendárias e outros símbolos representados em culturas de diferentes épocas e lugares. A estes símbolos ancestrais e atemporais chamou de imagens arquetípicas e justificou sua aparição na esfera da mente individual através da noção de inconsciente coletivo.

 

Aos arteterapeutas é recomendada cautela ao fazer interpretações. A eficácia do trabalho arteterapêutico reside num fenômeno de outra ordem que foi descrito de forma simples e objetiva por Fayga Ostrower no livro Criatividade e Processos de Criação: ao materializar novas formas e significações, o homem se configura a si mesmo. No ato de estruturação dos elementos formais e materiais, o homem se reestrutura. Dizendo em outras palavras: ao criar, o homem se recria. A função do arteterapeuta é acompanhar esse processo com atenção e cuidado, oferecendo as condições necessárias e estímulos geradores, os materiais facilitadores, acolhendo as experiências que surgem e auxiliando na compreensão da linguagem imaginativa dos símbolos.

 

Por existir no espaço de interseção das áreas de arte, saúde e educação, a arteterapia revela-se fundamentalmente multidisciplinar. Métodos e abordagens arteterapêuticas vêm sendo utilizados (como técnica principal, ou coadjuvante) em atendimentos individuais ou de grupos em instituições de saúde e reabilitação, consultórios e clínicas. Atuando junto a públicos que vão de crianças à terceira idade, a arteterapia também vem ganhando cada vez mais espaço nas escolas, empresas, e projetos sociais e comunitários. A arteterapia não se restringe às artes visuais. Estende-se potencialmente a todos as formas de arte, como a música, a dança, o teatro e até mesmo às mais tecnológicas, como a fotografia, o rádio, a tv e o vídeo (haja vista a experiência bem sucedida do projeto da TV Pinel).

 

Entre os dias 11 e 13 de novembro, vai acontecer o I Encontro de Arteterapeutas do Mercosul, que reunirá representantes do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, oferecendo uma oportunidade de intercâmbio e difusão de pesquisas e projetos em arteterapia. O Encontro será na sede do Instituto Bennet, no Flamengo e sua organização está a cargo da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro e recebe o apoio da UBAAT (União Brasileira de Associações de Arteterapia).

 

No mesmo dia 11, a galeria do Ateliê da Imagem inaugura a exposição Peles Fotográficas, com imagens produzidas pela artista e educadora Claudia Mauad. Na segunda quinzena do mês, haverá uma oficina em que o público interessado terá chance de conhecer algumas das técnicas artesanais de fotografia utilizadas para realizar os trabalhos em exposição.